Impressões do HackTown #4: Felipo Abreu

Felipo Abreu no HackTown 2026: a técnica não mudou, mudou a régua de valor. Impressões sobre economia criativa e o tempo de quem cria.

Na primeira impressão do HackTown, falei sobre reconhecer o Brasil que já existe. No post #3, sobre quem fica com o borogodó. Hoje o tema é o tempo, e a provocação veio de Felipo Abreu, do Senac Sorocaba:

“A técnica não mudou. O que mudou foi a régua de valor.”

Essa frase ficou ecoando em mim depois da palestra. Falando sobre economia criativa e ativação de territórios, Felipo trouxe uma ideia que considero fundamental: não precisamos ter medo de dizer que criatividade também pode, e deve, gerar dinheiro.

A questão é como fazer isso respeitando a cultura, os processos e, principalmente, o tempo de quem cria.

Felipo Abreu na Palestra do Hacktown

Quem é Felipo Abreu e por que a fala dele me tocou

Felipo Abreu atua há mais de 23 anos conectando educação técnica, cultura e economia criativa. É turismólogo e historiador, mestre em Economia, Políticas Culturais e Indústrias Criativas e doutorando em Bens Culturais e Projetos Sociais. Hoje é coordenador educacional no Senac São Paulo, em Sorocaba, onde desenvolve a metodologia Aprendimento Criativo, base do workshop que ele conduziu no HackTown.

A trajetória dele tem muito em comum com a minha: artesanato, ativação de grupos, desenvolvimento territorial. Ele também já trabalhou no Mato Grosso, onde atuei entre 2006 e 2008 com núcleos de produção artesanal. Foi bom ouvir alguém falando de dentro dessa mesma experiência.

Ações permanentes, periódicas e pontuais

Felipo apresentou uma distinção que parece simples, mas diz muito sobre como projetos são construídos: existem ações permanentes, periódicas e pontuais, e cada uma tem uma função diferente na construção de um território criativo.

O problema é quando as instituições tratam tudo como ação pontual, esperando de uma oficina de três dias o resultado de um processo contínuo. Quem trabalha com grupos sabe que existe:

  • o tempo de aprender;
  • o tempo de experimentar;
  • o tempo de criar;
  • o tempo de construir confiança e organizar o grupo;
  • e só depois, muitas vezes, o tempo de transformar tudo isso em produto, apresentar ao mercado e gerar renda.

O tempo do território não é o tempo do mercado

Aqui a fala de Felipo encontra o que vivo em campo. Os projetos institucionais muitas vezes chegam com prazos que não conversam com esses tempos:

  • queremos resultados rápidos em processos que precisam de continuidade;
  • queremos inovação antes de criar espaço para experimentar;
  • queremos produtos prontos antes de compreender quem produz e o que aquele território tem a dizer.

Não adianta dizer ao artesão que ele precisa “se adaptar ao mercado”. Precisamos criar condições para que ele entenda esse mercado, desenvolva produtos, organize a produção e encontre oportunidades sem perder a identidade, os saberes e os modos de fazer que dão sentido ao seu trabalho.

Por isso acredito que o desafio é aproximar o tempo do território do tempo do mercado, sem permitir que um apague o outro.

A régua de valor: o que a frase de Felipo Abreu muda

Voltando à frase do começo. Se a técnica é a mesma, o que muda quando ela passa a valer mais? O nosso olhar. A régua com que reconhecemos, valorizamos e remuneramos um saber é uma construção, e pode ser reconstruída.

É aqui que a economia criativa encontra sua verdadeira potência: transformar criatividade em valor econômico sem transformar cultura apenas em mercadoria.

Saio da palestra de Felipo Abreu voltando aos territórios com novas perguntas, e acho que é isso que um bom evento deve fazer.

No próximo post da série, o tema é a inovação que já existe nos territórios, a partir da fala de Liu Berman sobre economia circular.


Quer conversar sobre projetos de design e economia criativa nos territórios? Fale comigo ou conheça meu portfólio de projetos e consultorias.


Quem é Felipo Abreu?

Coordenador educacional no Senac São Paulo, unidade Sorocaba, com mais de 23 anos de atuação em educação técnica, cultura e economia criativa. É turismólogo, historiador e mestre em Economia, Políticas Culturais e Indústrias Criativas.

O que significa “a técnica não mudou, mudou a régua de valor”?

Quem é Felipo Abreu?
Coordenador educacional no Senac São Paulo, unidade Sorocaba, com mais de 23 anos de atuação em educação técnica, cultura e economia criativa. É turismólogo, historiador e mestre em Economia, Políticas Culturais e Indústrias Criativas.

Qual a diferença entre ações permanentes, periódicas e pontuais em projetos de economia criativa?

São três tipos de ação com funções diferentes na construção de um território criativo. Projetos que dependem só de ações pontuais tendem a não respeitar o tempo dos grupos produtivos.


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