Impressões do HackTown 2026#1: O Brasil que Ainda Não Aprendemos a Ver

Reflexões sobre a palestra de Vânia Lourenço (Mandacaru) no HackTown 2026: por que o Brasil ainda não aprendeu a reconhecer o próprio valor cultural

Entre os dias 1 e 7 de setembro estive no HackTown 2026, em Santa Rita do Sapucaí, MG, um festival de inovação, negócios e criatividade que reúne gente de áreas muito diferentes, mas que, no fundo, está sempre fazendo a mesma pergunta: como transformar ideias em valor real, para as pessoas e para os territórios?

Assisti a várias palestras que se conectaram diretamente com o meu trabalho em design e artesanato, e decidi transformar essas reflexões em uma pequena série aqui no blog. Este é o primeiro capítulo, e ele começa com uma provocação que carreguei comigo desde o primeiro dia do evento.

Reflexões sobre a palestra de Vânia Lourenço (Mandacaru) no HackTown 2026: por que o Brasil ainda não aprendeu a reconhecer o próprio valor cultural

O Brasil precisa aprender a reconhecer o Brasil que já existe

Foi essa uma das principais provocações que levei comigo depois de ouvir Vânia Lourenço, fundadora da Mandacaru, no HackTown 2026.

Vânia apresentou uma pesquisa que parte do Nordeste para ampliar o nosso olhar sobre o Brasil. Não um Nordeste reduzido aos estereótipos que tantas vezes aparecem no imaginário brasileiro, mas um território de enorme potência criativa, cultural e simbólica, capaz de produzir referências para novos modos de viver, criar, consumir e pensar.

Sua fala trouxe uma questão que considero muito importante: por que temos tanta dificuldade de reconhecer e valorizar as referências que nascem dentro do nosso próprio país?

Quantas vezes precisamos que uma referência brasileira seja reconhecida fora para, então, passarmos a enxergá-la como algo relevante? Quantos saberes, estéticas, formas de fazer, modos de vida e soluções criativas que estão presentes nos nossos territórios permanecem invisíveis porque ainda olhamos para eles a partir de uma perspectiva muito limitada?

A pesquisa da Mandacaru propõe justamente uma mudança de olhar: compreender o Brasil a partir de sua continentalidade, reconhecendo que não existe uma única identidade brasileira. Somos muitos Brasis, com histórias, culturas, paisagens, sotaques, saberes e formas de criar profundamente diferentes.

O paralelo com o Vale do Jequitinhonha

Enquanto ouvia Vânia, não consegui deixar de fazer um paralelo com o Vale do Jequitinhonha.

Eu havia acabado de voltar de Minas Novas, onde estive trabalhando com artesãos e grupos produtivos, e a fala dela encontrou algo que estava muito presente nas minhas próprias reflexões sobre o território.

Também no Vale existe esse desafio de superar um olhar que muitas vezes transforma uma região inteira em uma única imagem.

O Vale do Jequitinhonha não é um bloco homogêneo. Existem diferentes municípios, comunidades, histórias, matérias-primas, técnicas, manifestações culturais, formas de organização, modos de vida e, principalmente, pessoas que constroem diariamente a identidade daquele território.

Quando olhamos apenas para uma imagem já conhecida do Vale, assim como acontece com o Nordeste, corremos o risco de transformar a cultura em estereótipo e, ao mesmo tempo, deixar de perceber justamente aquilo que tem maior potência: a diversidade e a capacidade de criação que existem dentro do território.

O que isso significa para quem trabalha com design e artesanato

Essa reflexão dialoga diretamente com o meu trabalho com design e artesanato.

Ao trabalhar com grupos produtivos e artesãos, tenho percebido cada vez mais que desenvolver produtos não é simplesmente criar algo novo. É também aprender a olhar, investigar, reconhecer e traduzir aquilo que já existe.

Existe conhecimento nos modos de fazer. Existe inovação nos saberes tradicionais. Existe design nas soluções construídas ao longo de gerações. Existe valor nas histórias que ainda não foram contadas.

O papel do design, nesse contexto, pode ser justamente ajudar a tornar essas potências mais visíveis, sem apagar suas origens ou transformar a cultura em uma simples tendência de mercado.

Talvez precisemos mudar a pergunta

A fala de Vânia também me fez pensar que talvez precisemos mudar a pergunta.

Em vez de perguntar apenas “o que podemos trazer de fora?”, talvez seja necessário perguntar com mais frequência:

“O que já temos aqui que ainda não aprendemos a reconhecer?”

Essa é uma pergunta potente para o design, para a cultura, para a economia criativa e também para as marcas brasileiras.

O Brasil tem uma capacidade enorme de criar referências. Mas, para que elas possam gerar inovação, desenvolvimento e novas possibilidades, precisamos primeiro conhecê-las, valorizá-las e permitir que circulem.

Uma provocação para levar adiante HackTown 2026

Saio dessa primeira palestra do HackTown 2026 com essa provocação: olhar para o território não como um lugar que precisa ser transformado, mas como um lugar que já carrega conhecimento, criatividade e possibilidades.

E talvez seja esse um dos grandes desafios do nosso tempo: aprender a reconhecer a potência que está mais perto de nós.

Obrigada, Vânia Lourenço, pela provocação. E que o HackTown continue fazendo aquilo que sabe fazer tão bem: colocar ideias em movimento e nos fazer voltar para casa olhando o mundo — e o nosso próprio território — de um jeito um pouco diferente.


Este é o primeiro texto de uma série sobre reflexões que trouxe do HackTown 2026. Nos próximos posts, vou falar sobre identidade e pertencimento em territórios, sobre a economia da cultura periférica, sobre os tempos do fazer artesanal e sobre inovação a partir do que já existe nos territórios.

Se você trabalha com desenvolvimento de projetos, gestão pública ou fomento à cultura e quer conversar sobre como aplicar esses olhares no seu território, fale comigo.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *