
Quando falo sobre o papel do design junto ao artesanato, gosto de trazer exemplos reais — porque metodologia só faz sentido quando testada em campo, com gente de verdade, com os problemas que só aparecem quando o projeto sai do papel. Um dos projetos que mais me ensinou nesse sentido foi o Programa Minas Raízes, da Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), e especificamente sua atuação na cidade de Janaúba, no norte de Minas.
Compartilho aqui esse case, adaptado de um artigo que apresentei no XII Congresso Ibero-americano de Extensão Universitária, porque ele ilustra bem o que quero dizer quando falo em design social: não é sobre entregar um produto pronto para o artesão, é sobre construir conhecimento junto com ele — o mesmo princípio que discuto de forma mais conceitual no artigo O Que É Artesanato? Cultura, Identidade e o Papel do Design na Pós-Modernidade.
O que é o Programa Minas Raízes
O Minas Raízes nasceu em 2008, dentro do Núcleo de Design e Responsabilidade Social da UEMG, com o objetivo de aproximar a universidade da sociedade através de ações de design voltadas a comunidades artesãs. Ao longo dos anos, o projeto passou por diversas cidades da região metropolitana de Belo Horizonte, foi premiado no Prêmio Cidadania sem Fronteira em 2011, e em 2012 ganhou uma nova frente: parcerias institucionais com o Sebrae Minas Gerais e com a Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (SECTS), levando a metodologia para comunidades do norte do estado.
Foi dentro dessa parceria com a SECTS que nasceu o projeto em Janaúba.
Por que Janaúba foi escolhida
A cidade foi selecionada por dois motivos concretos: já era uma região de atuação prioritária da SECTS, e tinha um grupo de artesãos com domínio técnico consolidado no trabalho com matéria-prima renovável palha e fibra de bananeira. A ideia era que o projeto funcionasse como piloto, replicável depois em outras cidades da região.
O diagnóstico: entender antes de intervir
Antes de propor qualquer mudança, a equipe passou por uma etapa de diagnóstico que buscou entender o território, as técnicas produtivas e o contexto socioeconômico do grupo. O primeiro encontro reuniu 20 artesãos, a maioria ligada à Associação de Artesanato de Janaúba — uma associação formalizada, que recebia apoio da prefeitura com espaço de comercialização e cedia estrutura para cursos e participação em feiras.
O levantamento de cenário revelou um retrato que qualquer gestor de projeto de fortalecimento de artesanato provavelmente reconhece:
- Pontos fortes: qualidade da matéria-prima, artesãos tecnicamente qualificados, interesse genuíno em aprimorar o trabalho, boa localização e apoio institucional.
- Pontos fracos: dificuldade no tratamento das fibras, falta de padronização das peças, pouco retorno financeiro, baixa divulgação e pouca integração do produto com a identidade da cidade.
Um achado interessante — e que vale como alerta para qualquer projeto parecido — foi a divergência entre o grupo mapeado no diagnóstico preliminar e o grupo que efetivamente compareceu à capacitação. Nem todos dominavam a técnica da fibra de bananeira, e isso exigiu uma mudança de rota metodológica no meio do caminho: em vez de insistir num perfil que não estava presente na sala, a equipe adaptou a formação para acolher as diferentes técnicas e níveis de conhecimento que realmente apareceram.
O método: reconstruir a relação do artesão com seu próprio território
Uma das partes mais bonitas do processo foi a etapa de reconhecimento do cenário cultural. A equipe organizou visitas ao mercado municipal, a mestres artesãos e até às lavadeiras do rio Gorutuba — buscando mapear usos, costumes e memórias afetivas ligadas ao território.
O resultado dessas visitas foi surpreendente: tanto quem estava sendo visitado quanto quem visitava saíram valorizados. Feirantes e artesãs se sentiram reconhecidos por terem seu ofício associado à história da cidade; os próprios artesãos redescobriram um orgulho que o dia a dia da produção, sozinho, não costuma revelar.
A partir desse resgate, vieram os exercícios de processo criativo — pensados para criar um distanciamento saudável entre o artesão e os produtos que ele já produzia no automático. Esse distanciamento é importante: quando um artesão está preso à lógica de “produzir rápido para vender”, ele tende a desvalorizar o próprio processo. Os exercícios ajudaram o grupo a enxergar que técnica apurada e produto comercial não são coisas opostas — podem, e devem, conviver.
Os resultados
O projeto durou seis meses e seus resultados podem ser resumidos em três frentes:
- Integração do artesão com seu território — o grupo voltou a enxergar seu ofício como parte de uma história maior, não como uma atividade menor por falta de opção.
- Melhoria técnica e produtiva — critérios de qualidade foram definidos em conjunto com os próprios artesãos, endereçando problemas concretos como o ressecamento da fibra e a falta de padronização das peças.
- Formação prática do estudante de design — a experiência de campo, ancorada na lógica da andragogia (aprendizagem pela experiência), formou profissionais mais preparados para atuar de fato com consultoria em design e artesanato.
O que fica como aprendizado para outros projetos institucionais
Se você trabalha em uma secretaria de cultura, no Sebrae, numa prefeitura ou num coletivo que pensa em estruturar um projeto parecido, alguns pontos deste case valem ser levados adiante — e eles conversam diretamente com uma reflexão que já fiz sobre reconhecer a potência que já existe no território, em vez de tentar trazer soluções prontas de fora:
- O diagnóstico preliminar pode não corresponder ao grupo real. Planeje sua metodologia com flexibilidade suficiente para se adaptar quando isso acontecer — e vai acontecer.
- Reconectar o artesão com a própria história do território é, muitas vezes, mais transformador do que qualquer intervenção técnica isolada.
- O papel do design aqui não foi criar produtos, foi mediar um processo — de reconhecimento cultural, de troca de saberes entre academia e comunidade, e de reconstrução de autoestima em torno de um ofício que o mercado, historicamente, trata como menor.
Sobre este artigo
Este texto é uma adaptação, em linguagem acessível, do artigo científico “Minas Raízes Janaúba”, que apresentei no XII Congresso Ibero-americano de Extensão Universitária (2013), com o apoio institucional do Centro de Extensão da Escola de Design da UEMG.
Se você atua num projeto institucional e quer estruturar uma metodologia de fortalecimento de artesãos que respeite essa lógica de escuta e construção conjunta, conheça meu portfólio de projetos de consultoria em design para artesanato.


