Impressões do HackTown #3: Thamires Oliveira e o Borogodó | Andeira

Reflexões sobre a palestra de Thamires Oliveira (Margem Estratégica) no HackTown 2026: quem fica com o valor quando a cultura periférica vira tendência

Este é o terceiro texto da série de reflexões que trouxe do HackTown 2026. No primeiro post, falei sobre reconhecer o valor do que já existe no nosso próprio território, a partir da palestra de Vânia Lourenço. No segundo, sobre a diferença entre representar e pertencer a um território, com Bernardo Magalhães. Hoje a provocação vem da palestra de Thamires Oliveira: de quem fica com o valor quando a cultura da periferia vira tendência de mercado.

Quem fica com o borogodó? A provocação de Thamires Oliveira

Essa foi uma das perguntas que ficaram comigo depois da palestra de Thamires Oliveira, estrategista de marca e criadora da Margem Estratégica, no HackTown 2026.

Ela falou sobre o borogodó — esse jeito carioca de ser que a gente talvez não consiga explicar exatamente, mas consegue reconhecer. Aquele jeito, aquela linguagem, aquela atitude, aquela estética que a gente olha e pensa: tem borogodó aqui.

Mas existe uma questão importante por trás disso: de onde vem esse borogodó? E para onde vai o valor que ele gera quando é apropriado pelo mercado?

Extração cultural sistêmica

Thamires Oliveira trouxe uma discussão muito necessária sobre a extração cultural sistêmica: manifestações que nascem nas periferias e nas margens, são criadas por pessoas e comunidades específicas, mas que muitas vezes chegam ao centro do mercado com outro nome, outra narrativa, outro rosto e outro CNPJ.

A cultura cria. O mercado identifica. As marcas apropriam. E quem criou, muitas vezes, fica sem crédito e sem capital.

Não necessariamente por uma ação isolada ou por má-fé, mas porque existe uma lógica de mercado que historicamente naturalizou a invisibilidade de quem está na origem.

O paralelo com o artesanato

Essa conversa me fez pensar imediatamente no artesanato e nos territórios com os quais trabalho.

Quantos saberes, técnicas, estéticas, materiais e modos de fazer são incorporados às tendências, às coleções e às narrativas de grandes marcas sem que a origem seja reconhecida?

Quantas vezes o mercado descobre uma linguagem que já existe há décadas em determinado território e a apresenta como uma novidade?

E, principalmente: como fazer com que o reconhecimento cultural também gere retorno para quem produz essa cultura?

Uma ideia provocada pelo próprio HackTown

Foi aí que me veio uma ideia, talvez provocada pelo próprio espírito do evento: e se tivéssemos uma espécie de blockchain da cultura?

Uma tecnologia capaz de registrar a origem de uma criação, de uma estética, de uma técnica, de um saber ou de uma manifestação cultural — garantindo que, quando essa referência circulasse, fosse possível identificar sua origem e seus criadores.

Não seria apenas sobre crédito. Seria sobre rastreabilidade, reconhecimento e remuneração.

Imagine uma manifestação cultural que sai de seu território, ganha visibilidade, é incorporada por uma marca e passa a gerar valor comercial. Por que esse caminho não poderia deixar registrado também o território de origem e as pessoas que construíram aquela referência?

A cultura circula. Mas o valor também precisa circular.

O que o design pode fazer com isso

Essa reflexão me interessa especialmente porque trabalho justamente na interface entre design, artesanato, identidade e território.

O design pode ajudar a revelar e potencializar uma identidade, mas precisamos estar atentos para que essa valorização não se transforme em mais uma forma de retirar valor dos territórios.

Talvez o futuro esteja em criar novas formas de conexão entre tecnologia, cultura e economia, capazes de fazer com que aquilo que nasce nas margens não precise desaparecer quando chega ao centro.

E talvez a pergunta não seja apenas “como o mercado pode se inspirar na cultura?”, mas também: “como o mercado pode devolver valor à cultura que o inspira?”

Essa foi uma das provocações mais instigantes que levei do HackTown. E, no fim, talvez o verdadeiro borogodó seja justamente esse: ter uma identidade tão própria que o mundo queira reconhecê-la — sem que seja preciso deixar para trás quem a criou.


No próximo texto da série, trago a reflexão de Felipo Abreu sobre o tempo do fazer artesanal versus o tempo do mercado, e por que a técnica não muda, o que muda é a régua de valor.

Se você trabalha com desenvolvimento de projetos, gestão pública ou fomento à cultura e quer conversar sobre como aplicar esses olhares no seu território, fale comigo ou conheça meu portfólio de projetos e consultorias.

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