
Este é o segundo texto da série de reflexões que trouxe do HackTown 2026, em Santa Rita do Sapucaí. No primeiro post, falei sobre a palestra de Vânia Lourenço e sobre a dificuldade que temos, como país, de reconhecer o valor do que já existe dentro do nosso próprio território. Hoje quero trazer uma provocação parecida, mas vinda de outro lugar: a Amazônia — e de como construímos identidade visual para territórios que não conhecemos de verdade.
“Que tal olhar a floresta amazônica por baixo, por quem realmente faz a Amazônia?”
Esse foi o convite que ficou comigo depois da palestra de Bernardo Magalhães, da Agência Libra, no HackTown 2026.
Estamos muito acostumados a reconhecer a Amazônia por determinadas imagens: a floresta, os grandes rios, a biodiversidade, a paisagem exuberante. E, quando precisamos construir uma identidade visual relacionada à Amazônia, muitas vezes recorremos aos mesmos códigos, símbolos e imagens que já fazem parte do imaginário coletivo.
Mas e se olhássemos para a Amazônia por outro lugar? E se, em vez de olhar apenas para a floresta, começássemos a olhar para quem vive, constrói, produz e dá significado àquele território?
Bernardo trabalha com branding e design a partir das marcas e dos territórios amazônicos, trazendo para o centro da discussão a ancestralidade, os repertórios simbólicos e os modos de vida que constituem essas comunidades.
Representar não é o mesmo que pertencer
Sua pesquisa parte de uma provocação importante: existe uma diferença enorme entre representar visualmente um território e construir uma identidade a partir de quem pertence a esse território.
E foi justamente aí que a palestra encontrou uma questão que considero fundamental para quem trabalha com desenvolvimento de projetos, cultura, design e artesanato: pertencimento, identidade e design não são conceitos isolados.
Primeiro, o pertencimento: aquilo que fazemos parte, o lugar que reconhecemos como nosso e que também nos reconhece.
Depois, a identidade: a maneira como nos relacionamos com esse lugar, como construímos significados e como somos percebidos a partir dessa relação.
E então o design: a intenção de criar conexões, traduzir valores e construir formas de comunicar aquilo que somos.
Essa sequência parece simples, mas muda completamente a maneira de pensar um projeto. Porque, quando começamos pelo design, corremos o risco de criar apenas uma representação estética de um território. Quando começamos pelo território, pelo pertencimento e pela identidade, o design pode se tornar uma ferramenta de conexão e de expressão.
O que isso significa para o trabalho com artesãos
Essa discussão conversa muito com o meu trabalho junto aos artesãos.
Quantas vezes encontramos produtos que carregam uma história, um saber ancestral, uma relação profunda com determinado território, mas que acabam sendo apresentados ao mercado por meio de referências visuais genéricas?
Como transformar um território em linguagem sem reduzir sua complexidade? Como criar produtos e marcas que sejam contemporâneos sem apagar a ancestralidade? Como fazer com que a identidade visual seja consequência de uma identidade real — e não uma fantasia construída de fora para dentro?
São perguntas que considero cada vez mais importantes no design para artesanato.

Uma pesquisa para acompanhar
Outro ponto que me chamou muita atenção foi a pesquisa que Bernardo está desenvolvendo para o livro DNA — Design Nacional Ancestral Brasileiro, que será lançado pelo Senac em 2027.
A proposta de investigar referências ancestrais brasileiras e compreender como elas podem dialogar com o presente e com futuros desejáveis é, para mim, uma discussão extremamente necessária.
Precisamos ampliar nosso repertório sobre o que é design brasileiro. Talvez ele não esteja apenas nas grandes escolas, nos grandes centros ou nas referências consagradas. Talvez esteja também nos territórios, nos saberes transmitidos entre gerações — o que já é, de certa forma, o tema deste texto sobre patrimônio imaterial e cultura material —, nas soluções desenvolvidas pelas comunidades, nos materiais locais, nas formas de fazer, nos símbolos e nas maneiras próprias de compreender o mundo.
E talvez o grande desafio seja justamente aprender a enxergar tudo isso antes de tentar desenhar sobre isso.
A pergunta que fica após o Hacktown 2026
Saio dessa palestra com uma provocação que quero levar para o meu próprio trabalho:
Antes de criar uma identidade para um território, precisamos perguntar a quem pertence essa identidade.
Porque representar é diferente de pertencer. E design, quando feito com profundidade, pode ser justamente a ponte entre essas duas coisas.
Um trabalho de pesquisa que vale muito a pena acompanhar.
No próximo texto da série, trago a reflexão de Thamires Oliveira sobre extração cultural, criação periférica e quem realmente fica com o valor daquilo que vira tendência.
Se você trabalha com desenvolvimento de projetos, gestão pública ou fomento à cultura e quer conversar sobre como aplicar esses olhares no seu território, fale comigo ou conheça meu portfólio de projetos e consultorias.

