Festival Internacional de Artesanato no Peru: uma imersão no universo do algodão nativo

Entre os dias 7 e 13 de fevereiro de 2026, tive o prazer de acompanhar a equipe brasileira que participou do Festival Internacional de Artesanato: Intercâmbio Regional no Peru. O encontro reuniu artesãs, pesquisadores, instituições e profissionais da cultura do Brasil, Paraguai e Peru, dentro do projeto de cooperação internacional Mais Algodão (FAO-ABC/MRE).

Festival Internacional de Artesanato reunião no CITE Sipán

Mais do que um evento, o Festival Internacional de Artesanato foi um espaço de troca de saberes, histórias e práticas que atravessam gerações. Durante uma semana intensa de atividades, visitamos centros de pesquisa, museus, comunidades artesãs e projetos de conservação do algodão nativo, uma matéria-prima profundamente conectada à identidade cultural da região andina.

Para mim, que atuo há mais de duas décadas com design, artesanato e economia criativa, especialmente junto a comunidades tradicionais, essa experiência foi extremamente enriquecedora.

Festival Internacional de Artesanato: encontro de artesãs da América Latina

A programação do Festival Internacional de Artesanato contou com a participação das artesãs:

  • Marlice Machado e Ivone Machado, do Vale do Jequitinhonha (Brasil)
  • Carolina Giménez, representante do Paraguai
  • Rosa Marissa Asalde Ventura, representando as artesãs do Peru

Além delas, tivemos contato com diversas associações de artesãos de Túcume, Lambayeque, Chiclayo e Mórrope, conhecendo suas técnicas, histórias e processos de produção.

Na produção e articulação do evento também estiveram presentes Rozana Soares e Fernanda Scherer, fundamentais para a realização desse importante intercâmbio cultural.

Festival Internacional de Artesanato recepção do Gonzalo Sanchez

Festival Internacional de Artesanato e a imersão na cultura do algodão no Peru

Um dos momentos mais marcantes do Festival Internacional de Artesanato aconteceu no dia 9 de fevereiro, quando fomos recebidas no Instituto Nacional de Innovación Agraria (INIA), em Lambayeque.

Fomos acolhidas pelos engenheiros Saúl Percy Perez Saldaña, diretor da Estação Experimental Agrária Vista Florida, e Victor Ramirez Lora, coordenador de pesquisa da instituição.

Durante a visita, o engenheiro David Lindo Seminário nos guiou pelos campos de conservação do germoplasma do algodão nativo. Tivemos a oportunidade de ver uma plantação de aproximadamente três hectares em fase de colheita, onde observamos o capulho do algodão e as cores naturais da fibra.

Entre as cores encontradas na região estão:

  • branco
  • creme
  • lilás
  • marrom
  • marrom-alaranjado
  • marrom-avermelhado

Essas tonalidades revelam a enorme diversidade genética do algodão nativo peruano, uma riqueza agrícola e cultural preservada ao longo de milhares de anos.

O papel das mulheres na preservação do algodão nativo

Outro momento especial do Festival Internacional de Artesanato foi a visita conduzida pela engenheira Marité Yulisa Nieves Rivera, chefe do Programa Nacional de Cultivo do Algodão.

Ela nos apresentou os campos de algodão branco comercial, explicando o processo de autopolinização utilizado para manter a pureza genética das sementes.

Esse método é extremamente importante para preservar as características naturais da fibra — especialmente a cor — e vem sendo adotado também por artesãos que trabalham com o algodão nativo.

Um ponto que me chamou muito a atenção foi o destaque dado ao trabalho feminino nesse processo de conservação, já que são principalmente as mulheres que realizam o cuidado das plantas durante a fase reprodutiva.

Marité, inclusive, foi uma presença constante durante toda a semana do Festival Internacional de Artesanato, compartilhando seu conhecimento com generosidade e dedicação.

Agricultura sustentável e controle biológico no cultivo do algodão

Durante a visita ao INIA também conhecemos o trabalho do biólogo Darwin Pérez Tesen, responsável pela produção de insetos benéficos utilizados no manejo integrado de pragas.

Entre eles estavam:

  • a vespa Trichogramma pretiosum
  • o percevejo Orius insidiosus
  • a crisopa Chrysoperla carnea

Esses organismos são utilizados para controlar pragas de forma natural, reduzindo o uso de agrotóxicos e contribuindo para um sistema agrícola mais sustentável e saudável.

Conhecendo o banco genético de algodão na Universidade Pedro Ruiz Gallo

Ainda dentro da programação do Festival Internacional de Artesanato, visitamos a Universidade Nacional Pedro Ruiz Gallo.

No Arboretum do Centro Experimental, acompanhados pelo engenheiro Pedro Custodio Ayasta, conhecemos o banco de germoplasma que preserva diversas variedades de algodão nativo do Peru, além de espécies selvagens como o Gossypium raimondii.

Esse acervo científico é fundamental para garantir a preservação da diversidade genética da planta e apoiar iniciativas de pesquisa e salvaguarda cultural.

Festival Internacional de Artesanato visita a taller em Tucume

Festival Internacional de Artesanato e o resgate do algodão nativo em Mórrope

Encerrando o primeiro dia de imersão na cultura do algodão, visitamos o Instituto de Pesquisa do Algodão Nativo, em Mórrope.

Fomos recebidas por Gonzalo Sanchez, representante da iniciativa privada dedicada ao resgate e conservação do algodão nativo na região de Lambayeque.

O projeto mantém uma área de aproximadamente 2 hectares de cultivo e espaços dedicados à preservação de sementes genéticas, fortalecendo a continuidade dessa tradição ancestral.

Festival Internacional de Artesanato e a abertura oficial no Museu Tumbas Reales de Sipá

No dia 10 de fevereiro, aconteceu a abertura oficial do Festival Internacional de Artesanato, no auditório do Museo Tumbas Reales de Sipán.

Além das apresentações institucionais, tivemos a oportunidade de visitar o impressionante acervo do museu, que abriga os vestígios arqueológicos do Senhor de Sipán, um dos achados mais importantes da história do Peru.

Entre os artefatos expostos estão joias de ouro, prata e turquesa, cerâmicas e objetos rituais que revelam a sofisticação das civilizações pré-colombianas.

Artesanato, turismo e desenvolvimento local

Durante o festival também conhecemos as iniciativas do CITE Sipán, que atua no apoio ao desenvolvimento do artesanato regional.

Entre as ações realizadas estão:

  • apoio a designers e artesãos na criação de produtos
  • catalogação das técnicas artesanais
  • participação em feiras nacionais e internacionais
  • articulação entre turismo e produção artesanal

Esse momento foi especialmente importante para mim, pois permitiu fazer paralelos entre as metodologias utilizadas no Peru e no Brasil, abrindo novas reflexões sobre caminhos para o desenvolvimento sustentável dos ofícios tradicionais.

Troca de saberes artesanais em Túcumeo dia 11 de fevereiro, o Festival Internacional de Artesanato promoveu um encontro de troca de conhecimentos na comunidade de Túcume.

Participamos de oficinas práticas sobre processos artesanais ancestrais, incluindo:

  • tecelagem em tear
  • crochê
  • tricô

Também visitamos o Museu do Sítio Túcume e o complexo arqueológico conhecido como Vale das Pirâmides, formado por 26 pirâmides de adobe construídas por volta do ano 700 d.C.

Festival Internacional de Artesanato visita a taller em Tucume

Visita às artesãs do Santuário Histórico de Pómac

No dia 12 de fevereiro, visitamos duas importantes artesãs da região do Santuário Histórico de Pómac:

  • Betty Zapata Gonzáles – Taller Fibras Nativas
  • Esmeralda Jiménez Pintado – Taller Arte Ancestral

Além da produção artesanal, elas desenvolvem experiências de turismo vivencial, onde visitantes podem conhecer o território, participar das atividades produtivas e compreender melhor a cultura local.

Esse modelo amplia as possibilidades de sustentabilidade econômica das comunidades.

A criação de uma peça coletiva no Festival Internacional de Artesanato

Um dos momentos mais simbólicos do encontro foi a criação de uma peça coletiva entre Brasil, Peru e Paraguai.

A proposta foi misturar técnicas, materiais e referências culturais dos três países, simbolizando o período de convivência e aprendizado compartilhado durante o Festival Internacional de Artesanato.

Festival Internacional de Artesanato visita a taller em Tucume

Encerramento do Festival Internacional de Artesanato

O evento foi encerrado no dia 13 de fevereiro, com uma cerimônia realizada na Gerência Regional de Comércio Exterior e Turismo de Lambayeque.

O encontro reuniu representantes de instituições públicas, pesquisadores, artesãos e organizações envolvidas no desenvolvimento do algodão nativo e do artesanato na região.

Festival Internacional de Artesanato visita ao Museu Tumbas Reales

O impacto do Festival Internacional de Artesanato na minha trajetória profissional

Minha participação nesse encontro dialoga diretamente com minha trajetória de mais de duas décadas atuando em projetos de design, artesanato e economia criativa, especialmente junto a comunidades tradicionais no Brasil.

Ao longo da minha carreira desenvolvi diagnósticos participativos, capacitações, projetos de desenvolvimento de produtos e iniciativas de fortalecimento de cadeias produtivas locais.

A oportunidade de acompanhar todo o processo de resgate do algodão nativo do plantio à produção artesanal — foi extremamente significativa. Estamos falando de um sistema produtivo cujos saberes são preservados há mais de cinco mil anos.

Essa experiência ampliou meu repertório técnico e conceitual e reforçou as conexões entre matéria-prima, território, cultura e identidade.

O intercâmbio com artesãs e instituições do Peru e do Paraguai também permitiu estabelecer importantes paralelos com processos de salvaguarda realizados no Brasil, especialmente em territórios como o Vale do Jequitinhonha.

Participar do Festival Internacional de Artesanato reforçou minha convicção de que o design, quando aliado ao artesanato e ao respeito às tradições locais, pode ser uma poderosa ferramenta de transformação social, cultural e econômica.

Essa experiência internacional amplia meu campo de atuação e fortalece meu compromisso com projetos que valorizam os saberes tradicionais, o protagonismo das comunidades e a cooperação entre territórios.

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Scroll to Top