Cultura Material e Patrimônio Imaterial: Como o Artesanato Preserva a Memória de um Território

O que é cultura material e patrimônio imaterial, e por que o artesanato é uma das formas mais potentes de preservar a memória e a identidade de um território.

oda peça de artesanato carrega dois tipos de valor ao mesmo tempo: o valor que ela tem para quem a fez, e o valor que ela ganha depois, quando passa a fazer parte da história de uma comunidade inteira. Esse segundo valor é o que os estudiosos chamam de cultura material, e ele é bem mais estratégico do que parece à primeira vista, principalmente para quem trabalha com preservação de patrimônio, políticas culturais ou fortalecimento do artesanato local.

Esse tema foi o centro de um artigo que apresentei em coautoria numa conferência internacional de pesquisa em design, em Covilhã, Portugal, em 2013. Trago aqui as ideias centrais, em linguagem mais direta.

O que é cultura material, na prática

Cultura material é o campo de estudo que olha para os objeto, os artefatos que uma sociedade produz, como fonte de conhecimento sobre quem somos, de onde viemos e o que valorizamos. Um objeto artesanal não comunica só através da sua função prática: ele carrega técnica, matéria-prima, escolhas estéticas e, principalmente, memória.

Um artefato produz significado primeiro para quem o criou. Mas, a partir do momento em que esse objeto passa a circular e a ser reconhecido por uma comunidade, quando ele “entra” na memória coletiva, ele passa a carregar também os valores dessa coletividade. É por isso que preservar cultura material nunca deveria ser tratado apenas como uma questão de valor histórico ou artístico: ela está diretamente ligada à identidade de um território e das pessoas que nele vivem.

Por que o Brasil tem uma relação complicada com o próprio artesanato

Um ponto que discutimos no artigo original, e que considero essencial para quem atua com políticas de fomento ao artesanato no Brasil, é que a nossa relação histórica com a produção artesanal nasceu torta.

Diferente da Europa, onde o design como profissão nasceu ligado às transformações econômicas e sociais da Revolução Industrial, o design no Brasil se formou por influência direta de escolas estrangeiras (como a Escola de Ulm, na Alemanha), enquanto o artesanato seguiu um caminho paralelo, sem nunca estar de fato integrado ao desenvolvimento econômico do país.

Some a isso um histórico cultural em que, desde a colônia, as elites brasileiras buscavam reproduzir hábitos e objetos europeus como forma de status, cristais, porcelanas, modos de servir à mesa, enquanto tudo o que era produzido localmente carregava associação com pobreza e falta de alternativa. O resultado é uma visão distorcida, quase de “torcicolo cultural”: olhamos para referências distantes da nossa própria realidade para decidir o que tem valor, e isso ainda hoje afeta como o artesanato brasileiro é percebido — inclusive por instituições de fomento, que tendem a enxergar o setor apenas pelo viés econômico, sem considerar sua dimensão simbólica e identitária.

O paradoxo da era da informação

Vivemos um momento histórico curioso: nunca estivemos tão conectados, e ao mesmo tempo, nunca buscamos tanto por singularidade e autenticidade. Diante da velocidade da informação e da sensação de que tudo se parece com tudo, cresce o interesse por aquilo que é único, local, específico de um lugar — e é exatamente aí que a cultura material ganha força.

Os objetos artesanais funcionam como uma espécie de âncora: eles ajudam a criar laços de pertencimento entre pessoas e lugares, servindo como ponte entre a memória individual do artesão e a memória coletiva de uma comunidade inteira. Preservar essa produção não é, portanto, só uma pauta cultural — é também uma resposta a uma necessidade humana bem atual de reafirmar identidade num mundo cada vez mais padronizado.

O papel do design nesse processo

O design contemporâneo tem cada vez mais se aproximado da produção artesanal justamente por reconhecer esse potencial. Não se trata de “modernizar” o artesanato de fora para dentro, mas de ajudar a decodificar e apresentar essa cultura material de um jeito que ela continue viva, reconhecida e economicamente viável, sem perder sua ligação com o território e a memória que a originaram.

Essa é uma reflexão que também desenvolvo, com outro ângulo, no artigo O Que É Artesanato? Cultura, Identidade e o Papel do Design na Pós-Modernidade, os dois textos partem do mesmo princípio: o valor do artesanato está na sua capacidade de carregar identidade, não apenas na sua função prática.

O que isso significa para quem trabalha com políticas de fomento ao artesanato

Se você atua numa secretaria de cultura, num Sebrae regional ou numa prefeitura, essa discussão tem uma aplicação direta:

  • Avaliar um projeto de artesanato só pelo critério econômico é medir a coisa errada. O valor real de uma produção artesanal para uma comunidade muitas vezes está no que ela preserva de memória e identidade, algo que não aparece direto numa planilha de faturamento.
  • Investir em documentar a história por trás da técnica é investir em patrimônio. Registrar quem são os artesãos, como aprenderam a técnica e o que ela significa para a comunidade é, em si, uma forma de salvaguarda de patrimônio imaterial.
  • Política pública de artesanato bem-feita reconhece a dimensão simbólica do setor, não só a dimensão de geração de renda, as duas coisas não competem entre si, mas a segunda só se sustenta de verdade quando a primeira é respeitada.

Sobre este artigo

Este texto é uma adaptação, do artigo científico “Cultura material, memória, design e produção artesanal“, que apresentei em coautoria com Adriana Dornas e Marcelina das Graças de Almeida na International Conference on Design Research, em Covilhã, Portugal (2013).

Se sua instituição trabalha com preservação de patrimônio cultural e fortalecimento do artesanato local, e você quer estruturar isso de forma que reconheça tanto o valor econômico quanto o simbólico da produção, converse comigo sobre consultoria em design para artesanato.

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