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Devia ser 1977, sai com minha mãe. De mão dada fui passeando pela cidade de União da Vitória PR, vendo pessoas entregando papeis que eu não podia pegar, minha mãe não deixava. Se pegar de um vai ter que pegar de todos!! dizia ela. Minha mãe entra numa cabine de madeira, fecha a cortina de tecido e vota. Na época MDB e ARENA, não sei em quem ela votou, mas sei quem ganhou – para prefeito foi Arena (vide site do TRE).

Tenho uma relação particular sobre religião. Acho um assunto bem particular para ser tratado dentro de círculos muito próximos e de muito afeto. Fui criada no catolicismo, batizada, fiz primeira comunhão na igreja católica e por escolha não fiz a Crisma. Para quem não sabe – Crisma é uma confirmação do batismo – e na época não aceitava várias condutas da Igreja que frequentava e resolvi que ali não era meu lugar de fé..

Sim frequentava, ia a missa todo sábado, fazia parte do Grupo de Jovens [Jovens amigos de Cristo] na paróquia do Bairro Floramar. fazia campanha do quilo e as quinta feiras ajudava no Sopão que era distribuído as pessoas carentes do Bairro.

Segunda feira era dia de reunião Espírita no Espaço Caminhos para Jesus, ia tomava passe, recebia mensagem psicografada. Em alguns dias do ano ajudava minha mãe a lavar a casa com sal grosso e outras folhas, deixava doces no Jardim pros Meninos de Angola outros diziam que era pra Cosme e Damião, mas eu sempre soube que era pros Meninos de Angola mesmo.

Em minha casa tinha duas Bíblias, uma espírita e outra evangélica, católica mesmo acho que nunca teve. Mas minha mãe sempre disse, se quiser ler a Bíblia qualquer uma serve . Tinha também Nosso Lar, alguns livros de meditação budista … letras de pontos de Umbanda, Candonblé até hoje não sei a diferença – mas também não faz diferença quando o respeito é igual. Respeito igual sempre tive pelas imagens de cristo na cruz, pela Nossa Senhora das Dores, e do Preto Velho sentado fumado seu cachimbo que enfeitavam as estantes da casa

Em um ano que a Mulher foi tema da Campanha da Fraternidade eu fui Jesus na procissão da semana Santa. Fiquei bem irritada com o Padre pois tive que ficar horas com os braços levantados na hora da crucificação – e vou te falar uma coisa, não é fácil!!!!!

Nessa Igreja Católica, vivi momentos bem legais outros nem tanto. Conheci um seminarista que decidiu se casar espero que esteja feliz até hoje – era o Lutcho (ele era de algum pais Latino) Outro seminarista que era negro, filho de mãe de Santo na Bahia, usava cabelo rasta, e tinha umas guias penduradas no pescoço junto ao crucifixo. E quando era perguntado, não hesitava em dizer que era filho de mãe de Santo e isso ele não iria mudar, mas a fé dele era em Cristo e por isso iria ser padre sem deixar de lembrar de sua história.

Esse é o Clovis, se ordenou de cabelos curtos ou careca não me lembro, em uma roupa branca linda, com a igreja sem nenhum banco mas  com música e muito axé escrito em grandes faixas nas paredes da igreja. Pra ele fazer isso teve que ter uma autorização especial do Bispo, Papa, sei lá de quem. Não foi fácil para ele mas nós achamos o máximo – foi quase uma missa Conga! feliz! Depois disso ele foi mandado para outra cidade e nunca mais tivemos notícia, quem sabe esse post me ajuda a achar esse Padre, (Clovis – ordenou por volta dos anos 90 na paróquia do Bairro Floramar em BH) espero que esteja de novo com os cabelos lindos levando a palavra e muito afeto como fez com o nosso grupo de jovens.

Pois bem não foram só coisas boas que vivi nas religiões que tive acesso, por isso escolhi outros caminhos, mas deixemos os problemas pra outros texto! por isso certamente eu não faria opção de sair de minha casa para ir ver uma peça de teatro ou um filme que fale desse tema. Mas a minha formação por sí, já fala da tolerância. E não fui criada com verdades absolutas, fui criada para fazer escolhas. livre arbítrio, carma, responsabilização e respeito.

Hoje quando vejo uma pessoa sendo proibida de encenar uma peça que fala de afeto através de textos religiosos – fico espantada. Fico chocada, e então eu saio da minha pele para me colocar no lugar de uma outra mulher. Me coloco no lugar de uma mulher que assim como eu fiz, está se colocando no lugar de Jesus. Hoje saio de minha casa para ir ver essa peça e convido os amigos para irem também, pois para além da religião estamos falando de fé.

Fé que podemos ser pessoas bem melhores.

O EVANGELHO SEGUNDO JESUS, RAINHA DO CÉU  está em temporada em BH na FUNARTE do dia 5 a 8 outubro. Ingressos

Na minha pele. (Lázaro Ramos)

Não é um livro. Coisas assim não deveriam nem ocupar as estantes nas livrarias, muito menos deviam ser vendidas.

É muito mimimi. Isso que não chamo de livro, (usa a linguagem do texto e o suporte do papel para existir) fala de coisas tão corriqueiras, tão comuns, tão do dia a dia que nem deveriam estar ali. Nem causam espanto por serem comuns. Esse moço não fala de exceção, ele fala da regra.

A regra é essa.

A regra é que todo mundo tem o poder de ser invisível. Quanto mais a pele é branca, menor é o poder. O máximo do poder é de quem tem a pele negra, preta. Esse consegue passar desapercebido, nas escolas, nos bares, nos teatros, entre os médicos ou engenheiros, nos altos postos do governo, na publicidade ….

Normal, essa é a regra. Sou eu que saí da curva. Filha de mãe branca e pai preto, tenho meus privilégios. Criada na estrada, sem muitos vínculos, os problemas de não ter pares nas escolas, estavam em outro lugar. Viver a juventude num bairro pobre, mas chegando com essa história de não se enturmar, não fazia diferença. Na minha rua minha melhor amiga era irmã de traficante (esse rótulo é do bairro) hoje com o meu distanciamento, só posso pensar que aquele rapaz era no máximo um usuário, mas como era negro, ora bolas, traficante. Meus outros amigos, da PM, pois na periferia o caminho são dois, tráfico ou polícia. Ate hoje não sei como andei por esses mundos e não segui nenhum deles, acho que andei pela minha juventude como andei pela vida sem parar em lugar algum!

Voltando ao não livro, vocês acreditam que esse moço fala de livro infantil? Céus, a maior parte dos meus amigos tem filhos, e eles não tem esse mimimi para escolher livros. Eles sim se preocupam com a idade, se o tema está de acordo com a compressão, se o material e resistente (se for o caso de aguentar as mordidas da turma) se é bonito, se cabe no orçamento e pronto. Ah!!!!!!! Mas, esqueci de dizer que a maioria dos meus amigos com filhos são brancos. E as questões de representatividade não são uma questão para eles, nem minha até ontem. Até ontem, todos os livros que eu dei de presente, só foram avaliados por estes itens. Até ontem.

Sim eu li Monteiro Lobato. Sim e gostava da Cuca e já fiquei horas com uma peneira esperando o redemoinho para pegar o Saci. E um vez eu peguei!!! Nossa foi uma alegria, é uma emoção que eu sinto novamente cada vez que lembro do dia. Foi certeiro. Joguei a peneira e pude até ver ele lá debaixo, mas me atrapalhei na hora de levantar e colocar na garrafa. Fiquei dias triste com a minha falta de habilidade por deixar o Saci escapar … Até hoje faço silêncio ao passar por um bambuzal, talvez eu possa ouvir ele lá no meio!  Sim essa foi a infância que deu pra mim. Não tenho como mudar o que eu li, o que eu vi, o que eu vivi. Mas posso mudar o que eu posso fazer agora. Mas todas as crianças que eu conheço – vão saber da minha história com o Saci, e não há mimimi que me tire esse prazer! E quem me apresentou o Saci, sim foi Lobato.

Este não livro, fala de tantas outras coisas corriqueiras que não vou perder meu tempo em falar mais veja lá e depois me digam se é ou não é comum.

E a prova que isso não é um livro, e que ele nem tem fim. Ele traz páginas sem escrita para que possamos mudar o fim dessa história, pois definitivamente não dá pra continuar sendo corriqueiro, comum, natural, mimimi isso que é tão grave, tão assustador tão destruidor: o racismo. O racismo que não é exceção, que é regra, não deveria nem existir. Já que existe que bom que existe não livros que falem disso!

Feliz pelos 46 anos de muitas caminhadas triste só pra fazer rima.

Feliz por todos que compartilharam a comida ontem e triste por aqueles que não chegaram.

Podemos ser alegres e triste ao mesmo tempo e com a mesma intensidade;

Feliz pela atleta Karina Oliani que se torna a primeira mulher sulamericana a subir as duas faces do Everest  e triste pelas mortes que marcam mais um dia do gigante branco. (até o momento 3 sonhos chegam ao céu)

Triste pela forma que nós temos tratado a prisão da Andrea Neves, feliz por saber que seus atos possam ser julgados e ela responsabilizada. Triste por saber que nós podemos ser bem melhor que ela, mas tem hora que não mostramos isso. Feliz pois podemos mudar.

Hoje alegre pela partilha dos amores e triste pelos pedaços.

A todos que partilharam mais essa empreitada que não faltem pedaços nem amor.

imagens de livre inspiração cedidas sem querer por Mãe, Patricia Brito, Adriano Matos, Du Pente.

Em tempo de pouca fé

Em tempo de pouca fé, eu tenho ficado mais tempo na janela,

Em tempo de pouca fé, eu tenho acreditado mais nas pessoas

Em tempo de pouca fé, eu tenho olhado mais para as estrelas

Eu tenho sentido mais frio,

Em tempo de pouca fé, eu tenho olhado mais para os lados,

Em tempo de pouca fé, eu tenho acolhido mais os erros dos outros e os meus,

Em tempo de pouca fé, eu tenho respirado fundo,

Eu tenho lido mais,

Em tempo de pouca fé, eu tenho doado mais

Em tempo de pouca fé, eu tenho ficado cada dia com menos,

Eu tenho ficado mais leve

Em tempo de pouca fé não há reza que espante o medo

Em tempo de pouca fé tenho esquecido as orações

… tenho atentado para as emoções

Eu tenho tomado mais chá.

Em tempo de pouco fé, tenho esperado menos peixes

Em tempo de pouca fé eu tenho cozinhado mais com cravo,

Com cravo.

Em tempo de pouca fé eu aprendo

Em tempo de pouco o sagrado se manifesta

Em tempo de pouca fé, eu renovo a minha.

ahô!

A lua me acordou.

Sei o que sou contra mas não sei o que sou a favor.

Desde o quase fim do carnaval estou tentando escrever para falar da experencia deste ano. O texto já tem título > sobre o caos e a alegria, já tem foto. No entanto outro assunto tem tomando conta dos meus pensamentos. Abusos.

Não tenho sabido como lidar com o aumento de caso de abusos de homens contra mulheres da minha timeline. Não estou me referindo e nenhum caso específico – pois não é só um.

Sobre os casos que estão na rede, não tenho interagido. A única exceção foi um texto compartilhado por uma amiga que fala contra a cultura do escracho. Um texto que relata como o escracho tem favorecido a exposição da vítima. Apenas curti o texto.

Ponto. Até o momento sou contra o escracho, só não me venham falar que eu relativizo o escracho, pois quando é a Skol eu entro de sola. Empresa não sofre, perde dinheiro apenas (quando perde).

Voltemos, preciso falar do meu incomodo de como as coisas estão indo. Amigos abusando de amigas – sim pois anônimo só se for pra vocês, pois pra nós, as vítimas, tem nome, idade, endereço. Pois é na nossa porta que elas batem. Só que a porta mesmo estando sempre aberta, cada dia são menos procuradas, a certeza de que não vai dar nada está reinando na terrinha. Não vou escrachar, mas se eu vou tirar satisfação com o homem: pago de louca! Faz cara de coitado ou de paisagem, posso escolher!

É, então como é que faz? Deixa quieto? Faz BO? Deixa pra lá!

Ampliando o problema, ontem foi mais um dia de desalento, fui no FECHA A SANTA, em meio a uma festa linda, a cada fala durante o show – mais uma rasteira. As organizadoras implorando para a comunidade LGBTIQ façam as denúncias de agressões, a fala que mais me marcou foi: – Gente por favor, nos procurem para fazerem suas denúncias, são poucos os casos recebidos apesar de conhecermos de perto a realidade – Nós NÃO SOMOS NEM ESTATÍSTICAS.

E mesmo assim continuamos brincando e tentando ser felizes e dentro do possível, nós somos.

Como lidar com o outro lado da festa?.

São cada dia mais casos de discriminação, violência contra mulher, negras e negros, pobres, gays, índios …. e a solução cada vez mais distante.

NÃO ESTOU SABENDO COMO LIDAR.

Não quero atacar, para proteger a vítima – mas tá ficando fácil pros caras. Quando cai na rede, uma nota resolve. Quando a mina não quer expor, fica ali só a gente engolindo seco e galerinha de fora falando que estamos passando pano!! Vão a merda vocês que não sabem nem a metade das histórias.

Vítimas estão ficando mais caladas e opressores fazendo cara de paisagem, tudo na minha timeline.

E ainda tenho que ouvir: “mas você ainda não excluiu o cara dos seus amigos?” Não! E por que não? – Porque eu vou continuar encontrando com eles e com as vítimas nos roles! Não vai fazer a menor diferença nem pra mim, nem pra ele.

Já passei muito pano no chão da ocupação Tina Martins para ter um espaço pra proteger mulheres. Esse pano passo com prazer.

E a lua me acordou e agora me chama pra dormir de novo.

Pode ser que tenha sido só um sonho, pesadelo no caso.

passei a última semana em um lugar onde a comida não faltou, mas posso dizer que é racionada, a cama mesmo pra mim que era de fora, também foi compartilhada. estava num lugar que mesmo tendo energia elétrica o banho é sem chuveiro, é frio. estava em um lugar onde chega o gás de cozinha mas o almoço é feito mesmo no fogão a lenha. estava num lugar onde muita tem gente tem celular, mas nem pense que é iphone – é dos modelos simples mesmo.  estava num lugar onde o poder econômico não permite o ir e vir das pessoas. estava num lugar onde quem tem pouco é porque o gavião pegou os pintinhos ou o porco morreu, e recebe do governo duzentos e dez dinheiros. e quem tem muito recebe oitocentos. estava em um lugar que todos tem casa mas não são donos da terra. estava num lugar que podia ser cuba, lá já estive também. mas nesse lugar o pé de quem foi picado por cobra ficou “ofendido” pois a reza só deu pra salvar a vida, nesse lugar quando pergunto se sabem escrever a maioria das respostas é: aqui falta leitura, até sei ver a letras mas só sei juntar quando tem que firmar o meu nome no papel” podia se cuba mas é brasil. estive uma semana vivendo entre os meus, que sabem na pele o que é preconceito, que sabem que a lei aurea não foi nada mais que um papel, que o orgulho negro é herança de mae e pai pra filhas e filhos, sabem que a tradição é o que nos une a uma terra. nesse lugar o povo sabe muito de política pública e da falta dela. o povo desse lugar ficou feliz quando eu disse que votei na izidora pra prefeita e se algum dia eles romperem o poder econômico e romperem também as barreiras do territórios eles querem conhecer a prefeita eleita de bh. o povo de lá sabe que os mais velhos podem não ver as vitórias, mas empurram seus filhos pra fora com as forças que tem. uns filhotes saíram de lá sábado a caminho de outro preto num passeio que a professora organizou. pra ir tinham que conseguir quarenta dinheiros por pessoa para ter a passagem de quase dia de viagem comida e pouso. esse passeio era pros alunos, mas quando sobrou vaga quem ocupou foram as cantineiras, lágrimas. ajudei com vinte dinheiros a uma menina a sonhar, eu podia dar mais mas não era preciso, eles sabem o valor de tudo. e a amizade que fica não pode ser medida por dinheiros, fica pelas sacas de biscoito e ajuda para fazer as misturas ….  sei que ajudei a dar assas a gente desse lugar, e o que recebi foram sonhos concretizados. isso aqui é bem brasil.

Nossos direitos nos foram negados por tanto tempo que as vezes tenho a impressão que nós estamos nos contentamos com pouco. Pouco avanço pra muita dívida.

Não ao estado de mínimo de participação

Não ao estado mínimo de fala

Não ao estado mínimo de planejamento

Não ao estado mínimo de questionar as burocracias

Não ao estado mínimo de radicalidade

Eu sou pela máxima de direitos.

E por falar em direito, não sou advogada e não sei de outros significados que o termo estado mínimo possa ter, então conto com a generosidade de quem me lê, que me ouça pelo que eu digo e não pelo que está escrito na cartilha que eu desconheço. Não ao estado mínimo de paciência para ensinar e partilhar.

não sou meia, sou parte e sou todo.