Chegou dezembro! Chegou a época das passas-em-tudo. Resistência pra quem não gosta, eu que gosto, estou feliz. E por falar em coisas que gente gosta e outras não, queria falar de pós eleição. 

Eu tenho percebido que muitos de nós ficamos estamos nesse lugar de procurar respostas. Procurar culpados para tudo o que está acontecendo.Com isso veio os medos, as angustias e muito sofrimento.  Esses dias participei de uma Roda de Conversa de Análise de Conjuntura da PARTIDA MG, e a fala de alguns colegas serviram com inspiração para refletir sobre alguns assuntos.

Neste encontro me veio uma lembrança muito forte de uma época que vivenciei aqui em BH que foi a Izidora. Uma fala específica me chamou a atenção, foi sobre o lugar da militância de periferia,das mulheres negras, do povo negro, dos pobres que estão sentindo esse novo momento político do país de um modo diferente que nós da classe média de esquerda.

Então ela diz:

Que essa periferia, esse lugar de medo, de tortura,de violência policial não é novidade. E não é que eu não saiba, não é que eu não tenha consciência disso, mas sempre é bom as pessoas nos lembrarem. Então fica aqui o meu muito obrigada as companheiras que estão sempre nos lembrando.

Então porque eu lembrei da Izidora?

A Izidora, foi um dos movimentos que eu participei que eu mais pude perceber o que é realmente se colocar junto com o outro num embate. Onde eu, com meu corpo fui lá e fiz junto deles a resistência. Especificamente naquele momento que a Izidora estava sofrendo ameaças de despejo eminentes, e a gente tinha que ir fazer vigília. Eu trabalhava durante o dia, a noite ia pra Izidora, dormia lá. Na verdade não dormia, pois, a tensão era muita. No outro dia voltava pra casa, trabalho e anoite voltava de novo. Foi naquele momento que eu me aproximei das pessoas, que eu sabia o nome, onde moravam, sabia das suas realidades e necessidades. Naqueles momentos eu aprendi e mudei muito meu modo de pensar sobre a falta de moradia e o direito de um lugar digno pra todos.

escrevi muito sobre aquele momento, sofrido e acolhedor, dessa maneira eu não vou retomar agora, mas só pra lembrar.

Então pra nós que naquele momento, perdemos várias lideranças da Izidora, morrer. Que não foram nem uma nem duas, que foram várias que foram mortas, nós sabemos sobre violência.E aqui eu não estou falando de pessoas que eu ouvi dizer que foram mortas pela truculência de policia ou pela influência de pessoas que tinham interesse naquele lugar.

Eu estou falando de que estavam lado a lado comigo. Pessoas que eu conhecia, sabia quem era, onde morava o que fazia… e é dai que eu me lembrei disso hoje, que realmente a morte dessas pessoas, a violência, pra essas pessoas, não é novidade.

Então falar que estamos entrando hoje num governo que vai matar pobre, matar homossexual, matar indígenas, matar mulheres, matar ativistas de direitos humanos, matar os doentes – pra determinada parte da população brasileira – isso não é novidade.

Pós eleição

É neste lugar pós eleição que eu estou agora. Nesse lugar debuscas, busca por o que não é novidade. Acredito que chegamos ate aqui por alguns motivos: um deles faz parte das minhas, das nossas escolhas. Mas também,  não carrego a culpa de falar que a responsabilidade de estarmos aqui seja apenas por nossas escolhas erradas. Sim existem as responsabilidades. Mas também existem as escolhas dos outros, e fatores que não nos dizem respeito – que não podemos influenciar. Claro, poderíamos fazer diferente, sim, poderíamos fazer melhor,sim. Mas não somos responsáveis por tudo de errado que está acontecendo. Muitos de nós de fizemos o que foi possível.

Bem, nestas procurar, eu cheguei a algumas conclusões: Noque EU posso mudar, é sobre o que diz respeito a minha forma de atuação, minhaforma de absorção, minha forma de estudos. Sendo assim,  resolvi buscar outras formas, formatos para minha atuação.

meu lugar

Falando da área de comunicação, que é uma área que eu gosto.Eu gosto de escrever, eu gosto de ler, eu gosto de internet – acho isso um campo maravilhoso, é um lugar que eu me sinto confortável. Então vou ficar por aqui também.

Neste caminho eu encontrei alguns podcasts, canais do Youtube, blogs que estão me inspirando muito.

Entre eles achei um podcast do Mamilos, programa feminista que fala de vários assuntos sempre alinhados pela política. Estes dias elas fizeram um programa que falou sobre inteligência emocional, comunicação não violenta. Assuntos estes, que eu já li, já debati em outros momentos, mas que agora chegam como um novo significado bem prático pros dias de hoje. Esse episódio fala do momento que estamos vivendo – o quanto não vale a pena sofrer pelo que passou para não gerar angustia, e não sobre o que esta por vir pra não gerar ansiedade e viver intensamente e com responsabilidade o presente.

Não quer dizer que não podemos refletir sobre o passado, nem planejar e preparar o futuro – mas é preciso cuidar para o bem-estar hoje (eu não tenho a competência delas para o assunto– então entra lá e ouve – vale a pena).

Uma outra referência que eu vi esses dias foi no Canal do Gustavo Conde (ele faz uma live no facebook dele todos os dias e depois o vídeo compõe o canal do Brasil 247 no youtube). Ele é linguista e também fala de política a partir desse repertório. Neste dia específico ele estava falando do significado de umas palavras que nos temos usado muito como Fascismo. E segundo ele, em um determinado contexto o significado absoluto das palavras não é o mais importante, mas sim o quão podemos nos comunicar com elas.

minha interpretação das palavras do ou outro

Na minha livre interpretação eu pensei que muitas vezes temos chamado as pessoas que são contrarias a nós de Fascistas da mesma forma que e eles por sua vez nos retornam com a palavra Comunista. Nestes casos, a maioria das vezes, as palavras estão esvaziadas dos seus sentidos absolutos – mas mesmo assim estamos nos comunicando – e tudo bem quanto a isso.

E o que é e mais engraçado – bem como, quando chamamos a direita de fascista e eles nos chamam de fascista também! Temos que entender o que isso está dizendo: se nós sabemos o significado, e sabemos que por vezes usamos de forma retórica apenas para enfatizar o caráter autoritário ou preconceituoso da atitude do outro. O outro pode fazer o mesmo … (uhuu, se não sou capaz de falar muito mais sobre a comunicação não violenta – lá do Mamilos – do mesmo modo não tenho competência pra discorrer mais sobre linguística – se o assunto te interessa – segue lá o moço).Mas é sobre isso que tenho pesquisado.

devaneio

… nesse momento – me veio a lembrança de Olavo de Carvalho – desdenhando dos nossos poetas, das nossas palavras – e ai penso que Poesia é bom demais, salve nossos poetas, sambistas, compositores, musicistas ….

Voltando ao assunto

Então palavras, tem os seus significados próprios, mas também carregam um significado pessoal para cada pessoal, cultura e momento.

Desta forma, a palavra RESISTÊNCIA, começa a perder significado pra mim. Essa palavra que tem sido muito usada pela esquerda, e criticada pela direita com memes ótimos, começa a deixar de me representar. Mas não preciso pedir para as pessoas deixarem de usa-la, pois faz sentido pra elas (comunicação não violenta) mas eu posso deixar de usa-la.

Desta forma, fui buscar outras, palavras, outros significados que abarcassem meu novo momento.

Além disso uma outra palavra que me ajudou a querer refletir sobre significados – foi a palavra GOLPE.

Eu acho que foi Golpe, mas também acho que não foi só um GOLPE, e não acho que nós estamos num eterno GOLPE.

Pra mim, foi GOLPE

é um momento específico, é pontual. E quando há um algum golpe, acho que existe uma reação. Voltando ao Mamilos – quando temos uma reação, muitas vezes ela pode ser irracional, instintiva, isso é humano.

  • Eu acho que o afastamento da presidenta Dilma, FOI GOLPE,
  • A prisão do Lula, FOI GOLPE,
  • O dia após o resultado da eleição do segundo mandato da Dilma, quando o Aécio não reconhece a vitória e diz que faria uma resistência,de modo a não deixa-la governar, FOI GOLPE. Sendo assim ela não governou no segundo mandato.
  • Com o devido distanciamento, 2013, também FOI GOLPE.

Então, vamos combinar, nos estamos sedo golpeados, é golpe atrás de golpe e nós estamos sendo REATIVOS. Mas isso é culpa, e responsabilidade é mimimi, é choradeiras? pois é isso ai, eu acho que nós estamos reagindo.

Então, não quero mais estar nesse lugar de uma sempre REAÇÃO, ser sempre REATIVA e de eternamente estar reagindo a esse eterno GOLPE. Eu acho que o lugar da resistência pra mim foi importante, foi ele que me permitiu chegar até aqui, mas eu não quero mais.

E aproveitando que ainda existem as leis da física (sabe-se lá até quando) mas quando eu saio de um lugar, tenho que ir pra outro (nem sempre –mas para efeito de retorica do meu texto preciso disso – mas eu reconheço o não lugar – mas isso é pra outro texto)

Assim sendo cheguei em duas palavras para esse meu atual momento:

ASSISTÊNCIA

Pra mim, assistência está sendo no coletivo. Como eu posso dar assistência as pessoas, aos projetos as ações que estão dadas. Onde não me cabe, ou não é possível mudar, eu posso então, dar minha assistência, o afeto.

 AÇÃO

Sendo assim, eu quero AGIR, de forma pensada, planejada e não RESISTIR de forma impulsiva e irracional.

Onde isso vai dar não sei, mas eu começo aqui a minha AÇÃO.

Isso é o que depende de mim.

(o nome da colega que fez a fala na reunião da Partida foi preservado, pois não tive como pedir sua autorização – mas se ela quiser ser identificada, será plenamente nomeada, por hora posso dizer que é Mulher-Preta)

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andeira que sou ando, escrevo, leio e curto a estrada. de de pés descalços vou seguindo a vida, abrindo a janela quando chove e com uma mala sempre pronta pra seguir. partir é parte do caminho e chegada nem sempre o fim! andeira costa

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