Andeira sobre andar e andanças

Eu nasci andando, minha primeira viagem! Minha mãe morava na pequena cidade de Pequiá, divisa de Minas Gerais com Espírito Santo e que fica às margens do rio São Pedro. E para que eu não nascesse em casa, como foi minha irmã, meus pais me levaram pra cidade vizinha: Manhuassu, onde tinha um hospital. Por ser bem próxima, eu pude escolher a hora, e para aproveitar melhor o dia resolvi nascer, cedinho, às 7:40h!

Nasci em abril e em poucos meses já estava morando em Caçapava do Sul que fica a 2174 km, perto da divisa de Rio Grande do Sul com Uruguai. Continuei com andando pelas divisas indo morar em Porto União, divisa de Paraná com Santa Catarina.

Depois saí das divisas e fui morar na região metropolitana de Curitiba, na cidade de Mandirituba, foi lá que eu aprendi a ler, tomar mate, comer figo do pé e andar descalço em área de pinhão.

Foi depois disso que voltei, para enfim, morar em Minas. Fui morar em Carneirinhos, um bairro de João Monlevade. Minha mãe, e achava que precisava parar, para que eu e minha irmã pudéssemos estudar melhor. Meus pais então se mudam pra BH com intenção de fixar moradia, eu minha mãe e minha irmã, mas meu pai continuou as andanças. ele ia e vinha.

Mudamos primeiro para bairro São Bernardo, depois fomos o bairro Floramar, onde começou a construção dos Costa!  A casa pode ter fixado a família em terras de belo horizonte, mas as pernas estiveram sempre livres leves e soltas. Meus estudos foram entre Floramar- morando no São Bernardo. Quando mudei pro Floramar fui estudar no São Bernardo, só pra continuar andando! Depois fui andar mais longe, fui estudar no bairro Itapoã e depois pro centrão! Centrão de BH, antigo Anchieta ali bem vizinho do mercado central! A viagem agora é dentro da cidade.

Depois do centrão, subi Bahia e fui pra Lourdes, colégio Dom Cabral, era a único que tinha um curso técnico de desenho de propaganda junto com o segundo grau. Formei lá, e na formatura entrei de branco na tradicionalíssima Igreja de Lourdes – com isso se eu tinha sonho de entrar de branco numa igreja, ali já foi resolvido. Dos vestibulares entre administração e comunicação passei em design na FUMA, pra continuar as andanças, a faculdade ficava do outro lado da cidade. floramar> gameleira (da época sem metro). Dois ônibus pra ir, dois ônibus pra vir. Estudando a noite, sendo mulher e pegando ônibus as 23:30h na avenida paraná, apreendendo a me virar.

Da época que os amigos gostavam de praia e eu de cachoeira, os amigos gostavam de bares e eu de vôlei, os amigos gostavam de fumar e eu de desenhar em Ouro Preto. Daí veio o aprendizado que as vezes estamos com os amigos e outras fazemos o que gostamos, e se não coincidir – vai sozinha mesmo.

Na faculdade de design os estudos sobre identidades e cultura. Minha primeira pesquisa acadêmica era sobre a identidade cultural em minas – bolsa e de iniciação cientifica pra viajar por minas pesquisando, só viagem, só alegria, só perrengue, só aventura e pesquisa também.

Anos depois de formada o trabalho me levou para dar consultorias sobre design e artesanato. Desta vez o trabalho me levava lugares pra conhecer e trabalhar com gente, objetos e memórias. Comecei só em minas, depois corri uns trechos de brasil também. o trabalho me levou pra muitos lugares outros eu fui pra descansar do trabalho e descobri que quando se trabalha com o que gosta, não tem trabalho tem gostar do que faz.

As pernadas ganharam tempo e espaço.

Escolhas ainda diferentes da maioria dos amigos, segui sozinha na maioria delas. Escalei, voei de balão, andei, naveguei de barco, avião, carroça, cavalo, trem, andei a pé com mala, mala de rodinha,  bolsa e mochila. Descobri na prática que pra andar bem, as mãos têm que estar livres. E começam as mochilas, hoje são seis, tento de me desfazer delas, mas o apego e grande. Aos amigos eu empresto, mas elas sempre voltam.companheira de viagem as mochilas

Pra quem quer andar, além dos braços livres é bom ter pés bem protegidos. As primeiras botas impermeáveis – só que impermeável de dentro pra fora. A água entra e não sai, e você caminhando, fazendo bolha no pé, o pé pesando chumbo com tanta água e você aprende, que tecnologia tem preço.

Hoje já reconheço as botas de trekking pra cidade, são lindas pra quem quer fazer estilo aventura no asfalto. Mas pra andar mesmo, tem que ser boa. Uma boa bota no meu pé dura uns sete anos, então preço não fica tão caro assim.

Pra mim que andei por fronteiras chega a hora de ultrapassar as do brasil. Dúvida e medo. Já rodei brasil de cima a baixo, já conheço todas as regiões e quase todos os estados. Mas é tudo em português …. e aí vem a certeza que é nada, o brasil desse tamanho com tanta diversidade inclusive de língua, que o medo de não saber falar outra língua não iria de parar.

Próxima viagem

Fiz a lista dos lugares que eu queria conhecer … daqui pra lá, de lá pra cá – escolhi Ilha de Páscoa. Quis começar pelo lugar simbolicamente mais distante de tudo.

E lá vou eu. Nas minhas pernadas pelo Brasil já tinha feito algumas coisas com agências de ecoturismo, quando era pra lugares de difícil acesso, ou que precisavam de guias. Mas nunca tinha entrado nessas agencias comerciais. Escolhido a Pascoa achei mais seguro buscar um pacote (amarga ilusão) gente nunca passei tanta raiva com esse povo, eles querem te enfiar uns roteiros que nem a deusa acredita, eles não conseguem te ouvir e saber o que você quer, e não conseguem ser verdadeiros e dizer: isso nós não fazemos.

Como não sou dessas, sai da última agencia deixando a atendente falando sozinha e nunca mais voltei. Foi ótimo aprendi que viajar pra fora do país, com um pouco mais de atenção, você vai sozinha do mesmo jeito que no Brasil.

Só o Google salva. Sentei no computador, pesquisei, pesquisei, pesquisei, montei meu roteiro, escolhi os “melhores voos” horários enfim. Na hora de comprar a passagem veio a insegurança, e se der errado, é muito caro, se seu fizer um trem errado. Andar de avião não era uma coisa tão comum como hoje né amores.

Resolvi pedi ajuda para uma agencia de ecoturismo que eu já tinha feito uma trilha. Fui lá e o mundo se abriu. Outro atendimento outra vida, o atendente que conhecia o meu perfil de andeira, perguntou e ouviu o que eu queria. E eu ouvi as respostas que eu queria – você quer só a passagem? Você já tem seguro? Você sabe o que levar? Era uma agencia pequenina, o moço nunca tinha ido a Ilha de Pascoa, mas me ajudou a ir. Acabei até comprando com ele mais coisas do que hoje compro em viagens, mas foi minha primeira.

Lá fui rumo a Rapa Nui. Chegando cedo, mais cedo ainda pois mineiro não perde o trem nem o avião (claro que já perdi) olhando tudo, observando os outros passageiros, seguindo o fluxo nas conexões, esforçando para entender aquele espanhol que parecer um disco ela alta rotação.

Cheguei, lá. Troquei dinheiro, negociei taxi, negociei com guias locais, fui sozinha com mapa, errei o caminho, virei o mapa e deu certo. Com um mapa na mão e vi que o mundo e uma minas gerais ampliada. E pra quem tem uma avenida do Contorno confundindo as esquinas com Bahia, se vira em qualquer lugar.(piada interna, belo horizontinos entenderão)

Na dúvida volta pra entrada e começa de novo, isso eu aprendi na estação Central de São Paulo, claro que já me perdi por lá, na dúvida voltei pra porta de entrada e comecei de novo. Se eu me perdi no metro de São Paulo, o que é ficar perdida em um aeroporto gente, nada mesmo!

Uma vez superada a primeira fronteira, as outras deixaram de existir, vou pra onde quero, mas quero muito conhecer mais Brasil, mais América do Sul, mais América Latina, mais África, mais Europa, mais Ásia, mais Oceania, mais mundo antes de ir pra outros lugares.

Uma vez, dando aula numa faculdade, mandei dois artigos para congressos que iam acontecer no mesmo dia. Um em Lisboa e outro em Quito, aprovei os dois artigos, na hora de escolher pra qual eu iria pra apresentar, minha linha de corte foi, Portugal eu já conheço então eu fui pra Quito. Fui ao congresso, fiz minha belíssima apresentação depois fui pernar! Foi quando cheguei ao Cotopaxi.

Dá pra trabalhar e fazer um bela viagem, estudar e viajar, descansar e viajar e da pra viajar e viajar. Itália também conheci depois de um congresso, Argentina eu fui levando meu pai quando ele fez 70 anos, pretexto. Machu Pichu eu fui porque eu quis, Maranhão primeira vez foi encontro de estudantes, Acre foi a trabalho, Minas Gerias meu pouso, Espirito Santo casamento de amigo, Bahia escola, Cuba eu quis,  Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul não tive escolha, Mato Grosso trabalho, Tocantins passeio, Panamá e rota, Paraíba trabalho e Alagoas também, Piauí passeio e Goiás também. Rondônia e Mato Grosso do Sul só na conexão sem escolhas, por aí vai. São Paulo estudo, Rio passeio, Hoje não dou mais aulas e não preciso de pretexto pra andar, só vontade mesmo ou oportunidade.

E quando não da pra esticar as pernas, quando a mochila esta tomando um ar e a bota esperando uma limpeza que nunca vem, ai eu leio e nas hora de folga eu também escrevo.

andeira costa

Prazer em conhecer, essa sou eu, andeira, que vou compartilhar com vocês sobre andar e andanças,  sobre memórias e objetos. uma viagem da minha vida. O bom mesmo seria sentado tomando um chá esperando o embarque, mas enquanto a gente não se encontra na estrada, fico aqui falando da minha casa e do mundo, e do mundo da minha casa, nesse novo território sem fronteiras a web.

melhor viagem? sempre a próxima.

Author

andeira que sou ando, escrevo, leio e curto a estrada. de de pés descalços vou seguindo a vida, abrindo a janela quando chove e com uma mala sempre pronta pra seguir. partir é parte do caminho e chegada nem sempre o fim! andeira costa

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